domingo, 25 de setembro de 2011

'' O DIA EM QUE MARCÓS FOI AMALDIÇOADO ''.

           Marcós era um pescador que se virava de todo jeito. quando o mar estava ruim pra peixe o sujeito vendia tralhas no ferro- velho, trabalhava como servente de pedreiro e fazia favores para as senhoras da redondeza. seu pai era um conhecido pescador e que na sua juventude fechava o gol como goleiro do time  de Sepetiba da época. Marcós se achava muito esperto, conhecia o bairro como a palma de sua mão. e era aí que as mães das crianças confiavam nele à levá-las a pegar doce de '' Cosme e Damião''. longe de suas casas. em uma dessas vezes Marcós liderando á frente e os menores o seguindo, já se encontravam em uma das ruas do ''alagado'', próximo ao hospital " República da Croácia''. a noite já estava caindo, pois já deviam ser umas 18:30. alguns garotos já se preocupavam em voltar p/ casa quando em uma rua sem saída e sem asfalto Marcós avistara um terreiro de macumba. no portão meio aberto, um homem todo de branco e com um turbante da mesma cor na cabeça e pra completar, cordões de várias cores enfeitavam seu pescoço. querendo fazer graça, Marcós manda os garotos esperarem na esquina. vai até o homem e por alguns minutos conversa com ele. de repente, faz sinal chamando á todos. a molecada correndo se aproxima  do terreiro. o homem de branco, sério como ninguém, perguntava a idade de cada um. alguns meninos conseguiam ver que os sacos de doces estavam em uma sala, colocados no chão e em volta de emaranhados de palhas e com a imagem de Cosme e Damião no meio. a maioria não queria pegar aqueles doces, mas Marcós insistia e dizia que não tinha problemas. ( pois ele já era acostumado a pegar doces que despachavam nos jardins das praças ).  o homem de branco então se irritou. falou que não daria mais doce pra ninguém. Marcós  de imediato, demonstrou um certo desespero. pedira ao homem somente dois saquinhos de doce p/ seus filhos. * ( naquela época ele não tinha filhos ). o homem negava e dizia que não tinha mais conversa, fechando então o portão na cara de todos.
              na manhã seguinte, um de seus camaradas de pescaria o chama ás 06:30.  sua irmã então, atende avisando que Marcós está com uma forte dor no corpo que parecia ter tomado uma violenta  surra . os garotos ? estavam normais...  afinal de contas era dia de Cosme e Damião.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

'' O SÍTIO DE DONA CREONÍCE ''.

           Pessoas que conheciam dona Creoníce diziam que ela tinha herdado o sítio de seu marido que havia falecido. senhora de estatura baixa e parecida com uma espanhola, dona Creoníce era muito dedicada á seu sítio, que por sinal era bem grande e seus fundos dava para a rua que sairia na Croácia ( nome do hospital de Sepetiba ). a mulher tinha alguns empregados: uma senhorinha negra que fazia a comida e nas horas vagas um caprichado doce de leite.  mas a dona do sítio tinha um problema. quase sempre uma dor de cabeça. a molecada pulava em sua propriedade p/ roubar-lhe frutas. quando os cachorros latiam sem parar era hora dela pegar sua espingarda e dar-lhes tiros de sal grosso nos invasores. cocos ficavam p/ trás, carambolas pela metade marcavam o chão e os cajús ás vezes permaneciam nos pés. os tiros eram precedidos pela ladainha da velha senhora. quase sempre isso acontecia.
              até que num dia, dona Creoníce faleceu e a molecada que adorava fruta viu o caminho livre. passaram-se mais ou menos uma semana e dois rapazes resolveram pular no sítio para roubarem cocos. devia ser umas cinco e trinta e quarenta da tarde e o dia já estava indo embora. um deles subiu no coqueiro e o outro ficou embaixo com um saco de estopa nas mãos. ao chegar próximo aos cocos, o indivíduo começou á tirá-los e a jogar p/ o amigo. ao se distrair, olhou p/ o caminho que dava p/ a casa da falecida. de repente ele tomou um susto e gritou :  - é dona Creoníce, é dona Creoníce. olha lá...
o que estava embaixo não pensou duas vezes e nem resolveu conferir. pulou aquele muro alto, deixando o parceiro p/ trás, que minutos depois foi socorrido pelo caseiro em estado de choque e chorando feito uma criança.
                naquele dia não houve tiros de sal grosso, mas Creoníce continuava protegendo seu sítio ?

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

'' SEVERINO, O HOMEM QUE COMIA VIDROS ''.

           Severino era um cara tranquilo, sempre na dele, pouco falava. o sujeito era um pedreiro de mão cheia e todos lá em Sepetiba sabiam disso. portanto, seus serviços eram  meio caros.
            essa não é uma história propriamente de assombrações, mas o que Severino fazia quando bebia era de dar medo. quase todo final de semana, após o serviço ou durante ele, o homem não podia colocar uma gota de álcool na boca que acabava. o trabalho parava e ele pegava sua bicicleta barraforte e terminava num dos botecos do bairro. a bebida ia fazendo um efeito estranho nele. sua aparência e atitudes mudavam completamente. seu corpo ficava duro, suas mãos pareciam de pessoas que estavam possuídas pelo demônio. mas isso era o que todos achavam.
          : - '' quando Severino bebe o diabo incorpora nele''.
            tinha vezes que ele dava prejuízo nos donos de bares, quebrando seus copos e garrafas, deixando somente as pontas para então cortar seus braços e em seguida beber  seu próprio sangue. havendo vezes de mastigar os vidros e engoli-los. Severino uma vez havia feito uma coisa quase que absurda.tinha uma árvore na praça que já estava meia tombada,  porém ainda forte, que ele a arrancou com uma tremenda facilidade. o '' bicho '' parecia querer mostrar força no corpo daquele pequeno homem.
            no dia seguinte, Severino já curado do porre, não lembrava de nada. voltava normalmente p/ o serviço fazendo suas tarefas. seu corpo ? bem, seu corpo tinha alguns inchaços pelas pancadas nos ossos. mas os arranhões dos vidros não hesistiam mais.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

"O PESO NA REDE DE PESCA''.

            Eram quase meia-noite de uma quinta-feira. no barco, dentro da cabine os três amigos pescadores conversavam. Paulo Ninil deitado na cama improvisada. Augusto Souza tentava consertar a TV. e Pinduca passava o café. enquanto lá fora a enorme rede descansava  dentro d´agua presa á uma bóia de luz e a outra na ponta da polpa do barco. junto com o frio vinha a neblina, que mal dava p/ enxergar a Restinga da Marambaia, de onde eles estavam perto. ouvia-se motores de barcos passando ao  longe e quando se distanciavam o silêncio permanecia. apenas a batida da água no fundo da embarcação fazia um som forte e oco. quase uma hora de espera e os homens se preparavam p/ tirar a rede. colocavam seus macacões impermeáveis, as botas...  Paulo Ninil e Augusto Souza assumiam a rede. cada um com uma ponta começava a trazê-la pra dentro do barco.  de cima da cabine, Pinduka com um potente farol ilumina a rede no mar.
           - rapaz, essa rede tá muito pesada !! - resmungou Paulo Ninil, fazendo força p/ puxa-la.
           - deve ser a lama. tem muito lodo nessa baía! - respondeu Augusto Souza.
           - pra mim é um cardume de tainha.- respondeu Pinduka no comando do potente farol.
         
           de repente, em volta da  rede, peixes começavam a pular. mas presa nela só pequenos peixes de pouco valor comercial.  já pelo meio dela, os dois começam a sentir um cheiro forte de podre. Ninil manda Pinduka iluminar bem mais á frente.os dois homens sentem a rede pesar cada vez mais. já exaustos , conseguem dar um ultimo gás.quando terminam, se deparam com um enorme defunto preso á rede de pesca pelos dedos das mãos. assustados os dois largam-na. Augusto Souza ainda cai p/ trás, enquanto Paulo Ninil  corre em direção á cabine do barco. Pinduka permanece imóvel como farol em cima daquele homem inchado pelo seu adiantado estado de decomposição. partes de seu corpo comidas por peixes e siris, já não tinha mais os olhos. um buraco na testa chamava atenção e ficava a dúvida se era de arma de fogo. aos poucos o corpo foi afundando, porém, continuava preso á rede de pesca. passado um pouco o susto, Pinduka comunicara aos bombeiros salva- vidas do posto de Sepetiba através do rádio amador do barco. Paulo Ninil veio rebocando o corpo até perto da praia de Dona Luíza. quando amanheceu o defunto já estava na areia á espera do rabecão. mas enquanto não vinha, os curiosos faziam fila p/ ver a ''novidade'' do dia. uns com o nariz tampado, outros já puxando vômito de tão horrível que estava o mau cheiro.


           no fim das contas, Paulo, Manduka e Augusto Souza não pegaram quase nada de peixe. e de prejuízo ainda ainda tiveram que consertar o buraco que o tal defunto havia feito na rede.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

" BARULHOS NA COZINHA ''.

            Final dos anos 70 p/ o 80,  eu deveria ter mais ou menos uns cinco ou seis anos. a casa onde morávamos ficava na praia de Sepetiba, na esquina com a rua do Iate. na época os tijolos de barro das casas eram mais pesados, paredes mais altas, telhados com armações de ripa e pernas de três.ficando o ambiente mais sombrio. quando anoitecia, o quintal  e principalmente os fundos da casa faziam minha imaginação fluir. quando soprava o vento da praia os galhos das árvores balançavam sem parar, fazendo cair amêndoas no telhado. meu pai chegava quase sempre tarde da noite. e eu agarrado á minha mãe, rezava p/ que nada de mal nos acontecesse. só que, além disso, minha mãe questionava uma coisa : havia na cozinha daquela barulhos de panelas caindo no chão. ela então ia verificar mas estava tudo no lugar. as panelas estavam todas arrumadas. isso acontecia várias vezes. quase toda noite escutávamos aquele maldito barulho. mas ela parecia já está acostumada. pelo jeito ela não tinha medo e tentava passa a mesma coisa p/ mim. só que criança tem uma imaginação muito fértil. esperávamos meu pai e só assim eu ficava mais tranquilo.

'' À CAMINHO DA ESCOLA ''

           Quando eu era do primário nos anos 80, estudava num colégio próximo á minha casa de nome ''Instituto Sepetiba''. portanto, quase sempre ia á pé. mas num dia, meio que nublado pela manhã, pessoas vinham em minha direção e falavam com um tom de voz que dava pra entender alguma coisa. naquela hora da manhã a rua ficava cheia de alunos indo  para o colégio. mas á frente, próximo  á minha escola deu pra entender o falatório que havia na rua.
             : - menino, não passa por aí. tem uma mulher morta presa na árvore. - disse uma senhora, com a mão direita no peito. resolvi escutar  á mulher ,eu e mais algumas pessoas. ´porém, outras nem ligaram e resolveram ir adiante ver o acontecido.
             mais tarde, quando todos entraram na escola e deu-se a hora do recreio fiquei sabendo do caso: ''uma mulher negra e gorda, tinha se enforcado em uma árvora e deixdo ao seu lado uma criança recém nascida numa caixa de papelão. provavelmente seria seu filho''. o fato ocorreu quase no final da rua Dr. Ary Chagas, onde  quem vem da Rua da Floresta é a segunda entrada á direita.
             passou-se algumas semanas e ficamos sabendo que alguns moradores da rua onde aconteceu o suicídio viam a mulher negra enforcada na árvore. com essa historia, algumas pessoas evitavam passar por lá á noite. então para encerrar o assunto, os moradores resolveram então, por fogo na árvore e depois cortá-la. mas custaram a esquecer que naquela rua uma mulher tinha morrido enforcada.
           

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

'' UMA LUZ NA PONTA DA ILHA ''

            Miltinho, Sarará e tio Nina. pronto, a pescaria estava formada. mais uma noite de caceada pela ilha do tatu. ( cacear significa pescar á noite ). no caíque, três tipos de rede. 25,30 e 35. a primeira p/ camarão e as outras duas para peixe de pequeno e médio porte. Miltinho era o mais animado, porém, o novato do barco. tinha trazido de casa quase tudo p/ alimentá-los. pão com mortadela, café, biscoito, água...  deixando assim, os outros livre desse trabalho. tio Nina, o mais experiente  e muito conhecido pelos outros pescadores checava todos os equipamentos do caíque, junto com Miltinho, sue  sobrinho. aproveitaram a maré alta e saíram sem o sacrifício de encarar o lamaçal, na escura baía de Sepetiba.
          Sarará com suas remadas não conseguia pôr o barco em linha reta. tio nina já meio zangado, pediu a Miltinho p/ assumir á direção do remo. ao chegarem quase perto da ilha do Tatu ouviam latidos de cachorros. ( alguns moradores quando não queriam mais, deixam cachorros na ilha ).  alguns barcos pesqueiros passavam por eles e os comprimentavam. Sarará ascendeu as bóias de luz que ficavam presas á duas pontas da rede. ( isso evitava perder o material á noite e outros pescadores viam  que ali tinha gente pescando ). ao ser esticada no mar a rede ficava por um tempo até ser recolhida com alguns peixes preso nela. num momento de descanso, ti Nina ascendeu seu cachimbo, Sarará preparava seu lanche e Miltinho reclamava um pouco do frio que fazia. num exato momento  ao olhar p/ ponta da ilha do Tatu, viu uma luz avermelhada e forte e que chamou a atenção dos três. que raios seria aquilo?  luz vermelha na ponta da ilha ? - se perguntaram. não vinha de nenhum barco. os homens ficaram encucados. Sarará largou o café,  comeu rápido o pão... tio Nina não falava  nada. apenas observava e dava baforadas no seu cachimbo. Miltinho então, resolveu chegar um pouco mais perto. puxou a âncora p/ dentro do barco e começou a remar. Sarará pedia p/ que não fosse até lá. dito e feito.parecia que o ''branco de cabelos crespos'' tinha poder em suas palavras. Miltinho remava, remava... mas o caíque quase não saía do lugar. e pouco a pouco a luz vermelha e forte ia sumindo da ponta da ilha do Tatu.
          no dia seguinte, o assunto na beira da praia era esse. tio Nina olhado p/ o mar, os homens ao seu lado. de repente chega Miltinho de bicicleta e entrega o dinheiro da pesca  p/ seu tio. e lhe dá um recado : - tio, o Sarará falou que não vai pescar mais á note não!!
        o recado dado foi precedido por longas risadas dos pescadores que ali estavam.

'' A NEGRA DO TERRENO BALDIO''

           Praça Oscar Rossim. na época  existia um terreno vazio em frente á quadra de esportes e que de vez em quando crianças brincavam lá dentro. dona Francisca, dona do terreno, vendia doces em portas de colégios e não ligava muito p/ o lugar que ficava aberto e cheio de matos.deixando assim livre p/ moradores jogarem lixos de toda espécie. havia até uma poltrona velha, toda rasgada e que já estava ali há algum tempo. e foi essa poltrona que ajudou a causar um certo alvoroço nas crianças do local que ali brincavam. duas delas diziam ter visto no terreno  uma '' mulher negra e gorda ''. sentada em  cima dela. a molecada ficou com aquilo na cabeça que evitaram  de passar por ali por um  bom tempo. os adultos não acreditaram mas alguns ficaram encucados de que os meninos viram a tal mulher na parte da manhã e não á noite.
           verdade ou não, as crianças colocaram o nome de '' a negrinha do terreno baldio ''.

''SÃO PEDRO NA LAMA''

            Rua da praia de sepetiba , próximo à vala do barco , em frente á rua Ary Chagas . na areia da praia pescadores costurando redes de pesca . era um dia de sábado  ensolarado  no final dos anos 80. quando as redes ficavam muito danificadas  nos finais de semana , os homens tiravam o dia  p/ consertá-las . os que bebiam sincronizavam o serviço com goladas de cervejas . outros , iam mais além . como era o caso de Marquinhos , que facilmente com mais um parceiro derrubava uma garrafa de cachaça pura . o homem era conhecido como o trouxa que dava todo o dinheiro da pescaria p/ mulher e quando queria comprar seu maço de cigarro pedia  emprestado à ela . o pessoal não perdoava , era só vê-lo passar que a zombaria começava . mas foi naquele '' bendito '' sábado  que Marquinhos  resolveu tirar sarro dos colegas . atravessou a rua , Manoelzinho ao seu lado já cambaleando , cuspindo á toda hora...
          : - ué , o que aconteceu ? estão trabalhando hoje ?  mas hoje não é sábado  minha  gente ? tem algum cachorro aqui ? não estou entendendo... - gritava Marquinhos p/ os colegas na areia da praia .
          os 3 homens  observavam o estado daquela carimbada figura . completamente bêbado . nenhum deles respondeu tal insulto .
         : - vocês estão surdos ? pelo jeito... aê  Manoelzinho , os bonzões não querem falar .
          Marquinhso então resolveu sentar em um dos bancos de frente p/ o mar , torna a esfregar o rosto com uma das mãos ,  fixa o olhar na areia da praia e lentamente levanta a cabeça  e observa a maré vazia , deixando á mostra a faixa de lama . subitamente ele se assusta com algo e dá um grito: 
            - olha lá , olha lá . é ele ,  meu santo querido . é São Pedro... é São Pedro na lama .
           ele se levanta e vai em direção á lama , e já sujando os pés é contido por um dos homens que costuravam a rede . Marquinhos dessa vez parecia não está brincando . seu olhar , apesar de estar bêbado demonstrava um certo espanto .
            : - venha p/ cá rapaz . quer ficar preso aí nessa lama ? olha só o seu estado! - disse o homem , sentando Marquinhos na areia .
            no dia seguinte , mais zombaria . só que dessa vez foi sobre a visão que o ''pescador de andar ligeiro'' teve de São Pedro na lama . para todos que estavam na hora e os que ficaram sabendo depois o assunto não passou de deboche com o santo . papo de cachaceiro . mas porque Marquinhos iria inventar tal coisa e manter o assunto até o  fim ?
          
        

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